Uma população que parece acordar

Hoje cedo comecei as receber as brincadeiras naturais do 1° de abril. Entretanto, no meio de tantas mensagens, recebi uma de extrema sensatez, da jornalista Malu Aires, contendo uma análise do cenário atual do País, diante do momento pandêmico pelo qual passamos e a conduta do chefe do Executivo. Publico o texto da colega paulistana na íntegra:

 

Texto : Malu Aires

Bolsonaro, no pronunciamento em cadeia nacional desta terça, tentou provar que tem alguma utilidade.
Foi recebido com barulhaço, vaia e desprezo popular organizado, em todo o país. Uma fúria tardia, dada a iminente destruição que ele já provocava no Brasil.
Bolsonaro sempre foi o atraso de vida do povo brasileiro.

Enfim, o povo brasileiro cansou de Bolsonaro – da sua falta de seriedade, da sua inutilidade e da sua dificuldade de ser humano.

Bolsonaro queria ser rei. Quis que seus filhos fossem príncipes. Em tempos de crise do coronavírus, Carlos Bolsonaro é uma despesa injustificada pra cidade do Rio de Janeiro. Não é vereador, não para no Rio, não trabalha. Vive encostado nas benesses do Palácio. Eduardo Bolsonaro é outro príncipe que dá despesas pra Câmara, pras relações internacionais e pra frota da FAB. Como deputado federal, não trabalha. Vive pendurado nas benesses do Palácio, se fingindo poliglota – o analfabeto de duas línguas. O outro filho, Flavio, é o único que trabalha – com rachadinhas de gabinete no Senado Federal (500 laranjas à disposição).

Em 15 meses, Bolsonaro usou os cofres da União para comprar políticos, comprar aliados no sistema financeiro (bancos e investidores) e para subornar a mídia.
Usou o exército para grampear brasileiros e ameaçá-los. A aeronáutica para transportar drogas pra Europa. A marinha, para pescar e passar férias na praia.

Por 15 meses, Bolsonaro deixou um banqueiro tomando conta do galinheiro. Mandou a raposa cuidar do COAF e todos viveram felizes para sempre, com transações suspeitas. Mandou colocar a gastança sob sigilo e torrou no cartão corporativo, 40 salários mínimos por dia – uma festa.
Sua raposa, sempre muito elogiada por banqueiros, colocou todo o patrimônio do povo brasileiro pra render juros prum seleto grupo de investidores. Perdoou multas e dívidas de todos os caloteiros devedores da União. Não cobrou um só tostão de impostos aos estrangeiros.
Com o povo, a palavra era uma só – não temos dinheiro.

Do portão do Palácio, Bolsonaro mandava bananas pro povo brasileiro.
Povo, pra ele, só o do cercadinho de bajulação. Uma dúzia de puxa-sacos.

Bolsonaro nunca negou – o povo não podia contar com ele pra nada. Povo era despesa. Povo com fome, que se virasse.
Cortou milhões de pessoas de programas sociais, em um ano. Atrasou repasse do Bolsa Família, do INSS.
Do portão do Palácio, Bolsonaro jogava bananas pros famintos.

Seu vice defendia que filhos de mães solteiras e filhos criados pelas avós eram todos delinquentes.
Seu super-ministro, defendia que a polícia deveria matar todos usando a desculpa de “medo, surpresa ou violenta emoção”. Por “medo” dos pobres, mataram milhares de brasileiros em um ano. Por “surpresa” mataram crianças no colo das mães. Por “violenta emoção”, encurralaram meninos e meninas nos becos e mataram todos, por dias e dias.
Com Bolsonaro, nem os índios das florestas mais distantes estavam seguros. Ele mandou madeireiros e garimpeiros avançarem sobre aldeias e assentamentos, armados. Foram meses de extermínio indígena. Até fogo colocou nas matas, cobiçando riquezas preservadas nas reservas nativas.

Por 15 meses, dos olhos de Jair só se via o desdém, a ganância e a maldade.
Bolsonaro sempre matou mais num mês, que o coronavírus.

Os pobres se escondiam em casa, os índios se enfiavam nas matas, os trabalhadores dos campos se organizavam em vigília, as mulheres eram ameaçadas de estupro, os gays de espancamento, os negros de fuzilamento, os sindicatos não saíam às ruas, os estudantes ficavam quietos, os trabalhadores eram dispensados sem nenhum direito e ai deles se procurassem a justiça…
A quarentena do golpe já dura 15 meses. O medo da morte já rondava o Brasil e já fazia muitas vítimas.

Desde que Jair subiu a rampa, o desempego sobe. Ao final do ano passado, o país que mais exportava proteína animal, no mundo, negava carne pro seu povo. Jair ria e mandava todo mundo comer ovo.

Por mais de uma vez, Jair usou empresários do transporte, para ameaçar o povo brasileiro de desabastecimento. Quanto maior a necessidade do povo brasileiro, mais Jair ria e comemorava.

Tirou as Farmácias Populares e os remédios dos brasileiros que sofrem de hipertensão, diabetes e outras várias doenças. Apoiava o abandono dos programas de cuidados e prevenção de HIV, dizia que pacientes com câncer davam muita despesa, chegou a interromper ajuda financeira às mães de filhos com microcefalia.
Jair ria.
Seu ministro da Saúde apoiava um projeto de cobrança de serviços do SUS. O mesmo projeto norte-americano que está matando muita gente nos EUA, com a chegada do coronavírus.

“Quem não tem plano, morre!”
“Quem não tem dinheiro, adoece!”
“Quem não pode pagar, não estuda!”
“Quem vive da terra e produz alimento com ela, é vagabundo!”

O Brasil precisou de uma pandemia, pra entender que estava jurado de morte, desde 1º de janeiro de 2019. Precisou da chegada de um vírus mortal e agressivo, para entender que Bolsonaro é o maior perigo pro mundo.

O olhar de Bolsonaro, nesta última transmissão em cadeia nacional, era o olhar de um cara que perdeu seu lugar na maldade, prum vírus.
O Brasil entendeu que precisa combater todo o projeto genocida de Bolsonaro, pra se livrar da morte.
Os brancos, a classe média, correram pra janela pra espantar a má política, antes que a morte batesse em suas confortáveis residências, como já batia nas portas dos becos.
A favela perdeu o medo da patroa e gritou junto, pela própria vida – o arrimo da família.
Precisou uma pandemia ameaçar o Brasil, para a sociedade brasileira se unir e pro povo se valorizar.

O olhar preocupado de Bolsonaro, não é pelo que o Brasil perde quando Trump ameaça isolar o Brasil. Até isso estava nos planos de Bolsonaro, quando ele isolou o Brasil do mundo todo.
Não é porque a ONU ou a OMS o desautoriza. Isso ele já tentava com as sandices fundamentalistas e preconceituosas da Damares.
Não é porque Bonner o critica. Isso era um pacto de “isenção fingida”, entre Bolsonaro e a emissora que tirou da disputa, seu maior concorrente político.

Aquele olhar quase morto de Bolsonaro, é a preocupação com a união de um povo que, por 15 meses o temeu e que, agora, se percebeu maior que ele, mais forte que ele, mais senhor da própria vida que ele, mais dono do Brasil que ele, que a família dele, o cercadinho dele, as bananas dele, os puxa-sacos dele, a equipe genocida dele.
Ninguém tolera mais a voz de Bolsonaro. A voz do Brasil é a que grita na janela e o desautoriza, de norte a sul.

O Brasil precisou entrar na rota de destruição de um vírus, pra tomar coragem e organizar a própria casa. Limpando essa sujeira que se queria autoridade, impondo terror e morte.

O olhar desolado de Jair, era o olhar de um genocida derrotado. Jair já não é mais capaz de promover morte e medo.

O coronavírus matou o bolsonarismo.
Resta agora saber se vai imunizar o Brasil, das mentiras dos conhecidos genocidas.
Se vai curar o Brasil das promessas de soluções fáceis.
Viver não é fácil.

Precisávamos encarar a morte, para perdermos o medo da vida.
Precisávamos encarar a destruição iminente, para valorizarmos cada pequena conquista.

Poderíamos ter escolhido caminho menos doloroso, mas se precisamos de um coronavírus para esse despertar, é porque não estávamos prontos.
O Brasil precisou que uma pandemia fosse a última chance de um povo soberano ser dono do seu próprio país, irmão do seu próprio povo, guardião da própria vida.

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