12 de novembro de 2017

Acessibilidade e inclusão foram destaque no Circuito Penedo de Cinema

Graças aos tradutores de Libras, comunidade surda assistiu a todos os filmes exibidos na Mostra

Graças aos tradutores de Libras, comunidade surda assistiu a todos os filmes exibidos na Mostra

Cinema de graça, na praça e para todos. Todos mesmo! Um dos grandes destaques da programação do Circuito Penedo de Cinema deste ano foi a oferta de acessibilidade à cultura cinematográfica. Com o serviço de dois tradutores intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a comunidade surda teve a chance de participar e assistir a todos os filmes exibidos durante as Mostras de Cinema Infantil e Velho Chico de Cinema Ambiental.

O holofote e o lugar cativo bem próximo à tela do cinema indicavam que os profissionais responsáveis por trazer a acessibilidade estavam ali para atender àquelas pessoas que, naquele momento, se uniam ao público geral e se tornavam um só na Sala de Exibições montada na Praça 12 de Abril. O local ficou pequeno para acomodar as crianças, adolescentes e adultos que ali passaram e se divertiram com a variada programação de filmes em cartaz.

Foi o caso da Cícera Manuela da Silva. A estudante de Libras da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) assistiu aos filmes da Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental na última quarta-feira (8), o primeiro dia da programação.

Tímida, ela declarou ter adorado participar e completou dizendo que se sentiu muito bem no local. “A questão das interpretações [simultâneas], eu gostei bastante. Eu acho muito bom. É necessário ter a presença do intérprete. Fico feliz em estar aqui e participar”, ressaltou.

Ao lado da amiga Cícera Manuela, Claudineide Peixoto dos Santos também esteve ligadinha nos filmes da Mostra Velho Chico. Com olhar atento ao tradutor, compreendia a verdadeira mensagem que os filmes queriam passar. E, ao final das exibições, também conversou com a reportagem. “É a segunda vez que participo, foi muito bom. Avalio essa inclusão como muito boa, importante, eu gosto demais daqui e pretendo voltar outras vezes sim”, vibrou.

Quem também defendeu a inclusão no Circuito foi o Hermano Paulino Santos. Presente no evento pela terceira vez, ele lembrou quando pisou no cinema pela primeira vez – mais precisamente há três anos, no então Festival de Cinema Universitário de Alagoas – e frisou a importância da acessibilidade para o entendimento dos surdos.

“É muito importante que os surdos tenham essa acessibilidade para entender o filme. Esse aprendizado é maravilhoso. Os intérpretes têm uma habilidade incrível, eu gostei bastante. E a gente também, nos sinais, interagindo, foi muito bom. Vi cinema pela primeira vez aqui, quando teve a edição no Teatro, acho que há 3 anos, mas eu também me lembro a questão dos filmes, a temática ambiental, enfim. E pretendo continuar, eu gosto bastante. É ótimo, excelente!”, destacou, orgulhoso.

O reconhecimento à tradução simultânea

A entrevista com Cícera, Claudineide e Hermano foi possível por conta da tradução simultânea realizada pelos profissionais que trabalham para o Circuito Penedo de Cinema, Thiago Santos de Oliveira e Clezia Dionísio Silva.

Para Thiago, que atua nessa área há 10 anos e participa do evento desde a edição passada, em 2016, é extremamente importante que um evento dessa magnitude preze pelo caráter da inclusão. “A comunidade em si fica muito alegre de saber que o Circuito se adequa à acessibilidade, isso é muito bom”, completou.

O tradutor disse se sentir bastante satisfeito em poder participar do evento e que, às vezes, no final das contas, se diverte um bocado. “É muito legal participar, eu gosto muito, inclusive dos filmes que passam. Como a gente precisa interpretar, é ideal ter o conhecimento antes, então, em casa, analiso os filmes e me divirto em alguns deles. Quando é a Mostra infantil, é muito legal. Essa interação com os surdos, passar o conteúdo do filme pra eles, é bastante engraçado. As pessoas até riem, mas é uma satisfação fazer isso”, declarou Thiago.

Também presente pelo segundo ano no Circuito, Clezia Dionísio ressaltou que o evento levantou e abraçou a bandeira da inclusão. “Independente do espaço ou do ambiente, essa é a nossa luta – seja como profissionais ou como integrantes da comunidade surda. O Circuito é um evento de grande porte, e ter a presença do intérprete, proporcionar ao surdo esse ambiente, esse aprendizado, essa vivência, é muito importante. Espero que nas próximas edições o evento continue incluindo a comunidade surda”, disse.

A professora da Unidade de Penedo da Ufal, Josiane dos Santos, é a responsável por essa iniciativa. Desde 2015, ela se mostra envolvida com a programação das duas mostras e levanta a bandeira da inclusão. E, em especial, no ano passado, foi realizada a primeira experiência voltada ao público surdo com a interpretação simultânea.

“Eles diziam: a gente está entendendo o filme, isso é muito bom”, disse a professora. “Eu defendo a inclusão, e trazê-la para o Circuito é uma forma de mostrar a Ufal e o que desenvolvemos em sala de aula. Para os graduandos é um momento de interação; para a comunidade surda é uma forma de serem incluídos na sociedade”, disse ela.

A tradutora Clezia Dionísio reafirma a fala da professora. “A aceitação deles é maravilhosa. Meses antes do evento eles já perguntavam: e aí, nós vamos de novo ver os filmes? Então, eles ficam muito animados, passam o feedback pra gente, isso é muito legal”, complementou.

Izadora Andrade, de apenas 5 anos, foi levada à Mostra pelo pai, Eron Ramos dos Santos. Pela primeira vez no Circuito Penedo, a pequena teve a experiência de se sentir dentro de uma sala de cinema. Mesmo tímida, afirmou que gostou dos filmes, Para o pai da garota, a estreia foi com o pé direito.

“A questão do cinema pra ela é algo novo, de poder interagir com outras crianças. Sem falar que os filmes trazem cultura, ensinam cores, conhecimento, são conteúdos que trazem conhecimento. Então, é muito importante, tanto para ela quanto pras outras crianças. O fato de ela estar numa cadeira de rodas não a faz diferente das outras, mas, sim, que ela é uma criança igual a qualquer outra”, disse Eron.

A professora Joseane dos Santos aproveitou para reafirmar que o Circuito Penedo de Cinema tem uma programação diversificada e que visa atender a todos os públicos.

“Quando falamos em diversidade não podemos esquecer os surdos e as pessoas com deficiências. Algumas dessas pessoas nunca foram ao cinema e, quando vão, o filme não tem legenda nem intérprete. Para eles é como assistir a um filme ‘mudo’. Então, disponibilizar o intérprete de Libras nas mostras é permitir que os surdos entendam o que os personagens falam nos filmes, é trazer cultura a essa comunidade, é promover a inclusão”, disse ela.

Realização

O Circuito Penedo de Cinema faz parte das comemorações dos 200 anos de Alagoas e é promovido pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (Secult), e Instituto de Estudos Culturais, Políticos e Sociais do Homem Contemporâneo (IECPS), com patrocínio do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Prefeitura de Penedo e Serviço Social da Indústria (Sesi) e apoio de instituições públicas e privadas.

Deriky Pereira/Ascom Secult

 

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